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Jovens disputam o Mundial das Favelas, no Rio de Janeiro. Foto: Tânia Rêgo/ABr

Jovens disputam o Mundial das Favelas, no Rio de Janeiro. Foto: Tânia Rêgo/ABr

Rio de Janeiro, Brasil.- Nesta Copa do Mundo vimos chutes, cotoveladas, cabeçadas e até mesmo uma mordida. As celebrações dos resultados também não têm sido totalmente pacíficas: a primeira vitória da Colômbia deixou mortos e feridos em Bogotá; no Chile, as comemorações terminaram com queima de ônibus e confrontos com a polícia.

Caba assinalar que, a informação, traduzida em idioma português, foi distribuída pela ONU Brasil, no dia 8 de julho.

O esporte também está associado aos “barras bravas” em alguns países latino-americanos, aos hooligans europeus, à chamada “guerra do futebol” na América Central (1970) e até mesmo ao crescimento dos casos de violência doméstica, na Inglaterra, de acordo com um estudo recente.

Paradoxalmente, o mesmo esporte que desencadeia esses eventos nos estádios e fora deles também pode servir de ferramenta para obter o oposto: ensinar pessoas ou comunidades suscetíveis à violência a conviver em paz.

“É um esporte que chama, que desperta paixão, que atrai, que é coletivo, que requer interação, que tem grandes vantagens se usado como ferramenta para desenvolver nas crianças e nos jovens as competências que lhes permitirão resolver os conflitos de maneira pacífica”, explica Martha Laverde, especialista em educação do Banco Mundial.

Então a resposta para a crescente insegurança é construir mais campos de futebol e menos delegacias? Laverde adverte que, na realidade, o processo não é tão simples. “Não é o jogo pelo jogo, é preciso ter uma intencionalidade e é isso que estão fazendo tantas organizações pelo mundo ao utilizar o futebol como um meio para desenvolver uma cultura de paz.”

Futebol sem violência

Precisamente essa intencionalidade foi colocada em prática, com sucesso, em diferentes partes da América Latina, onde milhares de jovens de áreas afetadas pela violência da criminalidade ou do conflito armado escolheram mandar bolas em vez de balas.

Em Zacatecoluca, um dos municípios mais violentos de El Salvador, reforçaram o time de futebol e construíram um novo campo, que se tornou um lugar onde as crianças locais se formam nos valores do esporte e do respeito.

“Esta comunidade era uma das mais perigosas, e graças ao trabalho com os jovens conseguimos reduzir em praticamente 90% o índice de criminalidade”, explica Carlos Gómez Villegas, coordenador de escola de futebol na Colônia La Esperanza, em Zacatecoluca.

Na Colômbia, por exemplo, onde o conflito armado deixou mais de 200 mil mortos em 60 anos, a iniciativa “Fútbol con Corazón” ajuda mais de 2 mil crianças de comunidades suscetíveis a situações de violência a ter acesso a novas oportunidades e desenvolve neles habilidades que lhes permitam enfrentar as adversidades.

O padre Alberto Gauci foi muito mais longe e construiu um estádio para 20 mil espectadores em Juticalpa, uma localidade de apenas 120 mil habitantes em Honduras, afetada pela violência do narcotráfico e das gangues.

Gauci explica que não basta recomendar aos jovens que não usem drogas ou álcool, também é preciso oferecer alternativas.

A especialista Laverde explica que os papéis assumidos no campo são os mesmos que os jovens encontram na família, na escola e na comunidade: o líder, o estrategista, o defensor, o atacante, o que só quer resultados e o que só atrapalha.

“Todos esses papéis no jogo exigem pelo menos duas habilidades muito importantes: empatia e controle emocional”, diz Laverde.

Se conseguirmos, por meio do futebol, que as crianças e os jovens dominem essas duas habilidades de interação social, eles ganhariam, sem dúvida alguma, “as ferramentas que os protegeriam de agir com violência”.

Todos esses valores são necessários na América Latina, oficialmente catalogada como a região mais violenta do mundo, uma vez que nela ocorrem 30% de todos os homicídios do mundo, apesar de abrigar apenas 9% da população do planeta.