Enfermeira coloca bebê prematuro em rede de algodão. Complicações durante o parto ainda são uma causa frequente de mortes maternas no país. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom

Enfermeira coloca bebê prematuro em rede de algodão. Complicações durante o parto ainda são uma causa frequente de mortes maternas no país. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom

Rio de Janeiro.- A representante da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, em resumo das atividades da 58ª Comissão sobre o Status da Mulher (CSW58), criticou a lentidão na redução das desigualdades entre os gêneros e citou o “caso Alyne”, ocorrido em 2002, como exemplo da situação da mulher no país.

“É inaceitável o alto número de casos de mortalidade materna que poderiam ser evitados com cuidados médicos e assistência adequada”, diz a representante, referindo-se ao 5º Objetivo de Desenvolvimento do Milênio. “Serão necessários investimentos muito maiores para oferecer às mulheres serviços de saúde reprodutiva e sexual adequados.”

Para ilustrar as precárias condições de saúde enfrentadas por muitas mulheres, Gasman citou o caso de Alyne da Silva Pimentel Teixeira, mulher negra, pobre e grávida que, após perder o bebê, faleceu em decorrência de “uma sucessão de atendimentos precários” no Rio de Janeiro, em 2002.

O caso Alyne

Em 14 de novembro de 2002, Alyne, de 28 anos e no sexto mês de gestação, buscou atendimento médico na rede pública de Belford Roxo (RJ). Mesmo relatando fortes dores, ela foi liberada após a administração de analgésicos. Sem melhora, ela retornou ao hospital, onde se constatou que seu filho havia morrido.

Submetida, após horas de espera, a uma cirurgia para retirada da placenta, o quadro se agravou e ela precisou ser transferida para um hospital em Nova Iguaçu – operação realizada, contudo, com grande demora. Nele, após várias horas de espera no corredor devido à falta de leitos de emergência, Alyne faleceu em decorrência de hemorragia digestiva.

Solenidade de reparação à família de Alyne Pimentel. Foto: Agência Brasil

Solenidade de reparação à família de Alyne Pimentel. Foto: Agência Brasil

“Nada poderá trazer Alyne de volta ou apaziguar a dor de seus familiares”, disse Gasman. “Mas a resposta e o reconhecimento do governo brasileiro servirão de parâmetro para casos semelhantes”, completou, clamando pela melhoria dos serviços de atendimento e pela conscientização das mulheres sobre os seus direitos.

5º ODM: preservando as mães brasileiras

O 5º Objetivo de Desenvolvimento do Milênio – que trata da melhoria da saúde materna – tem como objetivo a redução da mortalidade materna em 75% até 2015, com uma média inferior a 35 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos. Desde 1998, o Brasil conquistou uma redução de 51%, de 103,43 para 56 óbitos nesta escala.

“No entanto, esses números ainda são elevados e muito pode ser feito”, declarou Gasman, citando especialmente as dificuldades vividas por mulheres do Norte e Nordeste brasileiros. “No Brasil, a grande maioria das mortes de mulheres na gestação e no parto tem razões de gênero, raciais e socioeconômicas, e isso não pode ser tolerado.”

Segundo o Ministério da Saúde, mais de 90% das mortes maternas no Brasil ocorrem por violações de direitos humanos, sendo que as mães afrodescendentes correm 1,5 vezes mais riscos de morte por causas obstétricas do que as mulheres brancas.

Cabe assinalar que a informação foi traduzida e divulgada o dia 4 de abril pela ONU no Brasil.