Maria de Jesus Viana hoje vive longe de áreas de enchente, com saneamento básico, registro de água e ligação regular de luz. Foto: Banco Mundial/Mariana Ceratti

Maria de Jesus Viana hoje vive longe de áreas de enchente, com saneamento básico, registro de água e ligação regular de luz. Foto: Banco Mundial/Mariana Ceratti

Rio de Janeiro, Brasil.- A pedreira Maria de Jesus Severino, 35 anos, e a professora aposentada Maria de Jesus Viana, 50, não se conhecem, mas apresentam muito em comum. Além de terem o mesmo nome, elas sentiram na pele as transformações recentes do lugar onde moram: Lagoas do Norte, em Teresina (Piauí).

A primeira comemorou ao receber, em maio, o diploma de um curso profissionalizante de pedreiro. A oportunidade foi oferecida aos antigos oleiros locais, que faziam tijolos com a argila tirada das lagoas – e intensificavam o processo de degradação ambiental.

Eu era dona de casa e carregava tijolo nas olarias, mas agora quero fazer reboco, teto, encanamento e trabalhar em uma empresa de construção”, disse ela, elegantemente sentada em uma das poltronas do Teatro do Boi, onde ocorreu a formatura.

Já a professora se mudou há dois anos e meio para um conjunto habitacional longe de áreas de enchente, com saneamento básico, registro de água e ligação regular (e grátis) de luz. “Minha casa sempre foi de tijolo, mas vi gente vivendo em construções de taipa totalmente indignas”, lembra. “Muitos vizinhos estavam tão mal que vieram para cá antes de a área ter calçamento.”

É preciso informar que, o relato foi editado pela ONU Brasil e divulgado no dia 18 de outubro.

Parceria contínua

A construção de novas áreas habitacionais, a reabilitação do Teatro do Boi e a recolocação profissional dos oleiros se tornaram possíveis por meio de um projeto envolvendo o Banco Mundial, a prefeitura de Teresina e o governo federal.

Essa parceria, que já dura quase cinco anos, ganhará continuidade em 2014. O projeto de financiamento adicional — serão até 120 milhões de dólares — começará a ser preparado em breve, segundo a gerente da iniciativa, Lizmara Kirchner, do Banco Mundial.

As obras da primeira fase serão concluídas em dezembro, e há um mês e meio foi inaugurada mais uma seção do parque de Lagoas do Norte”, conta ela. “Na segunda fase, a ideia é tirar mais gente das áreas de risco de enchentes, continuar os trabalhos de drenagem e saneamento, melhorar algumas pistas e proporcionar áreas adicionais de lazer para toda a região.”

A primeira fase do projeto atuou em 325 dos 1.300 hectares que precisam ser recuperados, sempre com um comitê de moradores acompanhando as obras. No total, 400 famílias foram retiradas de áreas de risco. Além disso, 253 famílias de oleiros receberam compensação financeira, aposentadoria ou cursos para recolocação profissional.

Melhorias gerais

Tudo o que foi feito até agora deu mais cidadania à população, embora esse seja um processo ainda incompleto. Queremos consolidar a melhoria na qualidade de vida”, avalia o prefeito de Teresina, Firmino Filho. Para ele, o trabalho em Lagoas do Norte ainda permitiu à prefeitura estudar melhor a própria cidade e criar ações para outras áreas da administração.

Geramos, por exemplo, um plano diretor de transportes com o qual conseguimos captar 107 milhões de reais para a melhoria do transporte coletivo e da mobilidade urbana”, continua. Isso tem impactos positivos não só sobre a população da área, mas sobre todos os teresinenses.

A área conhecida como Hiroshima — construída em terreno facilmente alagável — é tida como uma das prioridades para a próxima etapa. “Aqui é muito precário. Ano passado, choveu e a casa caiu em cima do meu neto”, lembra a dona de casa Carmen Maria de Sousa, 37 anos.

Ganhei madeira para construir uma nova, mas mesmo essa já está perigando cair”, acrescenta ela, que sustenta o menino e mais oito filhos com os 290 reais do Bolsa Família. Dos 100 mil moradores de Lagoas do Norte, 65% ganham por volta de 1,5 dólar ao dia.