C4 Foto UNUDC .Viena.- Um grupo de especialistas se reuniu em Viena no final de setembro para analisar os efeitos das novas tecnologias da informação sobre o abuso e a exploração de crianças, assim como medidas que provaram ser eficazes no seu combate, segundo uma nota divulgada nos últimos dias pela UNODC Brasil e Cone Sul. O encontro reuniu especialistas das áreas acadêmica, de aplicação da lei, pesquisa e indústria.

A exploração online de crianças é uma crescente preocupação internacional, com os avanços da tecnologia facilitando o seu abuso. Os baixos preços de dispositivos de tecnologia de informação e comunicação e o fácil acesso à internet permitem que os criminosos sexuais tenham um acesso sem precedentes a materiais e a uma comunidade online para afirmar o seu comportamento abusivo e explorador.

Além disso, crianças e jovens estão adotando novas tecnologias mais cedo e com mais freqüência, e sem querer se expõe a predadores de crianças online em um ritmo sem precedentes. O abuso sexual para fins particulares e comerciais, o tráfico de crianças e o aliciamento e o bullying online são apenas alguns dos riscos que a era digital trouxe para crianças de todo o mundo.

“A exploração de crianças não é um fenômeno novo, mas a era digital tem agravado esse problema deixando as crianças mais vulneráveis”, disse o Diretor Executivo do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), Yury Fedotov. Enquanto avanços nas tecnologias de informação e comunicação não têm necessariamente dado origem a novas formas completas de abuso de crianças, elas têm em alguns casos mudado a natureza e a dimensão da exploração.

Através da internet, os predadores online podem ter acesso às crianças mais rápido e em volumes mais elevados, utilizando salas de chat, e-mails, jogos online e sites de redes sociais para encontrar vítimas. O ciberespaço também reduziu significativamente o risco e aumentou a capacidade dos infratores para acessar material de abuso sexual infantil. “Antes da internet, considerava-se que um criminoso tinha uma enorme coleção com 150 imagens de crianças; hoje uma coleção de 150.000 imagens é bem padrão, e uma coleção de 1,5 milhões de imagens não é algo inédito”, disse o Dr. Joe Sullivan, um psicólogo forense que trabalha com exploradores sexuais de crianças.

Novas formas de exploração também estão se desenvolvendo com fácil acessibilidade: a pornografia infantil feita por encomenda é um exemplo, no qual os infratores solicitam materiais com suas especificações, tais como idade e raça das vítimas, a natureza do comportamento sexual, o cenário e o enredo da fantasia.

Uma série de fatores tornam as crianças mais vulneráveis ​​ao abuso infantil online: o gênero desempenha um papel importante com a maioria das vítimas sendo meninas, enquanto fatores como raça e etnia, situação sócio-econômica, idade e comportamento de risco típico da adolescência tornam algumas crianças mais vulneráveis ​​que as outras.

Mas a modernidade é a principal culpada. “Antes, as crianças vulneráveis tinham pais para agir como uma barreira em relação às pessoas com quem eles entravam em contato, agora isso é passado”, disse Michael Moran, Diretor Assistente de Tráfico de Seres Humanos e Exploração Infantil na INTERPOL.

O ambiente globalizado e anônimo do ciberespaço também ajuda os predadores a escapar de novas maneiras,e uma infinidade de desafios técnicos comprometem a capacidade dos governos de identificar e solucionar crimes de exploração infantil. Redes criminosas organizadas também exploram o espaço vazio, lucrando com a pornografia infantil comercial e o mercado de tráfico de crianças para exploração sexual.

Globalmente, a falta de legislação consistente e adequada entre os países é um grande impedimento para o êxito das investigações e dos procedimentos penais. Cada país varia consideravelmente em suas definições de diversas formas de abuso e exploração infantil, e muitas vezes não podem se mover rápido o suficiente para promulgar leis que acompanhem o ritmo da tecnologia.

Mas a tecnologia também apresenta oportunidades e pode oferecer soluções para agências de aplicação da lei e governos combaterem o problema. “A internet tem sido uma coisa boa para os policiais, trazendo tudo isso à tona. Nós agora podemos identificar e localizar os criminosos”, disse Jonathan Rouse, Detetive-Inspetor da Polícia de Queensland, na Austrália, onde comanda uma força-tarefa contra crimes facilitados pelo computador envolvendo crianças. Inovações em métodos e técnicas, tais como bases de dados de identificação de vítimas e análise de dados, também melhoram os processos forenses para avançar investigações.

Os especialistas concordam que uma melhor educação e conscientização são essenciais para proteger as crianças. “Nós não vamos simplesmente conseguir sair deste problema através de processos criminais”, disse Rouse. Os pais devem trabalhar para superar a diferença digital entre gerações e ter um interesse especial pela tecnologia que dão aos seus filhos, educando-os sobre o uso seguro e sobre os potenciais ramificações do comportamento online descuidado. “Pais e educadores precisam de um bom entendimento de como os agressores trabalham”, acrescentou o Dr. Sullivan. “Eles são muitas vezes surpreendidos com a sofisticação dos criminosos, e com os níveis de manipulação que eles empenham para ganhar acesso às crianças”.

“O UNODC está em uma posição única para ajudar os países a lidar com esta questão a nível global”, disse Fedotov. “Podemos incentivar a cooperação eficaz entre os países nas investigações e apoiar os esforços globais de conscientização para educar pais e crianças sobre o uso seguro de tecnologias de informação e comunicação. No entanto, todos devem fazer sua parte, incluindo o setor privado, que é a principal força por trás da evolução tecnológica”.

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